Histórias de superação marcam a participação de paratletas no World Pro, em Abu Dhabi

Foto: Mauro Neto/Sejel
Histórias inspiradoras para o mundo e a disseminação da arte suave como paradesporto. Foi esse o maior legado da primeira seleção brasileira de parajiu-jítsu que participou do pré World Professional, em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes. O País canarinho dominou o pódio em quase 90% e os amazonenses cooperaram e muito para este resultado. Com a boa ‘fama’, a Federação de Jiu-Jitsu dos Emirados Árabes Unidos (UAEJJF) ainda anunciou três eventos no Brasil, para 2017, voltados ao parajiu-jítsu. Os competidores da terra receberam apoio do Governo do Amazonas, via Secretaria de Estado de Juventude, Esporte e Lazer (Sejel).

Alex Taveira, já conhecido entre os amazonenses, foi um dos que ganhou prestígio da Federação Internacional de Abu Dhabi. O motivo ‘reluz’ longe: o lutador conquistou duas medalhas de ouro, sendo pela categoria 56kg e absoluto. A categoria veio após o casca grossa enfrentar um brasileiro e vencer por 9 a 0. O absoluto foi conquistado num ‘atropelo’ de 30 pontos de vantagem, contra um atleta da casa.

“Essa é a primeira vez que o World Pro tem lutas somente com paratletas e a iniciativa foi um sucesso. Foram boas lutas, com técnicas, que surpreendeu muita gente e, o mais importante, incentivou a modalidade. Sou imensamente grato ao secretário Fabricio Lima e a Federação por esta oportunidade e acredito que por eu desenvolver o jiu-jitsu com pessoas que não tem deficiência, consegui amarrar um jogo melhor, pois ganho mais experiência assim. Porém, isso não quer dizer que foram lutas fáceis, pelo contrário. A final da categoria me deu muito trabalho e tive que ser forte”, destacou Taveira.

O desempenho de Alex repercutiu tanto, que o faixa preta foi convidado para ser embaixador do parajiu-jítsu no Amazonas. A notícia foi dada pelo representante Abdul, em jantar com a Seleção Brasileira. “A intenção dos representantes de Abu Dhabi é que parajiu-jítsu ganhe o mundo e seja valorizado. Eles entendem que isso é importante. Assim, destinaram essa missão de embaixador para alguns atletas, de estados diferentes, e eu fiquei honrado, muito feliz. Vou encarar com muita responsabilidade”, avisou.

Casca Grossa de verdade
O atleta Ender Rodrigo foi outro amazonense que orgulhou seu Estado na terra dos sheiks. Aos 32 anos, o lutador pode ser considerado como a definição para o termo casca grossa. Isso porque, em 2012, indo para o trabalho, de moto, ele se deparou com uma manobra de um caminhão na contramão, que o arrastou por cinco quilômetros. Sua perna ficou presa no eixo do veículo e ele ficou acordado até sua primeira cirurgia. De lá para cá, aliás, o centro cirúrgico virou algo comum, uma vez que ele teve que passar por mais 11 cirurgias na tentativa de estabilizar da melhor maneira seus membros inferiores.

Como um milagre, Ender se salvou, passou por todas as intervenções, e atualmente não mexe o pé esquerdo e a perna é totalmente no osso. Diante de toda reviravolta, o amazonense resolveu liderar há três um projeto social, chamado de Valente de Deus Vivo, que proporciona às crianças e jovens do Dom Pedro aulas gratuitas da arte suave. E foi com uma ação pensada no próximo, que ele foi o mais beneficiado. Isso porque, a intenção de Ender era apenas passar seus conhecimentos aos alunos, entretanto, a rotina do tatame fez ele sentir novamente a vontade de competir.

“Minha intenção não era voltar a disputar campeonatos, mas sim de servir ao próximo. Eu queria e precisava fazer o bem, pois Ele me concedeu uma graça e sou grato eternamente por isso. Mas o fato de eu dar aula, começou a despertar em mim a vontade de competir. Além disso, eu comecei a me questionar sobre ser realmente uma referência para os meus alunos. Desta forma, após seis meses desta minha convicção, comecei a disputar campeonatos. Os meus alunos foram meus grandes incentivadores” contou ele, que tem como sede do projeto parte de uma igreja, cedida por um pastor.

Com tanta ‘bagagem’ pela vida, Ender não para de querer buscar superação. Por isso, durante esta semana, ele participou do pré World Profissional Jiu-Jítsu de ParaJiu-Jítsu e conquistou a medalha de prata pela categoria até 77kg. “Junto com o meu mestre Ricardo Guimarães, da Game Fight . eu consegui encontrar um método para proteger a perna e no tatame tudo começa a fluir. Fico feliz com a conquista, mas principalmente em como as pessoas passaram a respeitar mais o paratleta depois das nossas apresentações. Isso tudo é incentivo para buscar sempre além”, destacou.

Pós-acidente: Primeiro paraplégico de preta
No dia 1 de abril de 2017, o paulista Rafael Rodrigues ganhou do mestre Rocian Gracie Junior a faixa preta de Jiu-Jítsu. Com isso, ele se tornou o primeiro paraplégico que chegou a esta graduação depois de já ser uma Pessoa com Deficiência (PCD). Com poucos dias de conquista, o lutador já estava no pré World Profissional Jiu-Jítsu de ParaJiu-Jítsu e fazendo jus a confiança do neto de Carlos Gracie: ele foi campeão na absoluto preta adulto, após vencer o Argentino Ramiro Cardoso por oito pontos, na classe 10, depois de uma montagem espetacular. A luta foi considerada a mais técnica pelo evento.

“Existem alguns deficientes que são paraplégicos, como eu, mas quando eles sofreram acidente havia a situação que: ou eles já treinavam e tinham alguma graduação, ou já eram faixas pretas. Fiquei muito emocionado com essa graduação e ainda mais por chegar aqui e ser campeão. Isso aqui representa muito para mim. Atualmente sou bancário e atleta, mas quero ser mais feliz e viver só do esporte. E com essa conquista em Abu Dhabi, as portas vão começar a abrir e já venho tentando negociar minha vinda para cá, pois aqui conseguirei viver da arte suave”, destacou o lutador de 38 anos.

Aos 17 anos, em 1997, Rafael foi vítima de desabamento. Uma casa desmoronou em cima de uma oficina em que ele trabalhava, ele estava na hora no local, e o acidente comprometeu sua coluna. Depois de seis meses do fato, o jovem já estava na AACD realizando reabilitação e descobriu o esporte. No período de 13 anos, ele passou por diversos esportes, até descobrir o Jiu-Jítsu. Ao que tudo indica, foi amor à primeira vista e para sempre.

“Eu estava me preparando para um campeonato de handbike, nessa época fui até campeão brasileiro nesta modalidade, e o meu preparador físico começou a me convidar para participar de um treino. De tanto ele insistir, eu fui, e achei fantástico, pois a tradição deste esporte é ser uma arte suave e ela realmente é, pois é algo que se adapta à pessoa. Com isso, o mais fraco pode vencer o mais forte, usando a técnica de alavanca correta e isso é muito verdade, pois não importa se você não tem o movimenta das pernas, de um braço”, testemunhou Rafael, orgulhoso de fazer parte de uma legião de paratletas de Jiu-Jítsu.

“No Brasil tem pelo menos 250 paratletas de Jiu-Jítsu registrados e muitos que não sabemos. E esse evento me trouxe o retorno também de PCDs que querem iniciar na modalidade, ou que desconheciam que havia um grupo se movimentando para aumentar a classe e valorizá-la. Isso é maravilhoso, pois tenho prazer em conhecer essas pessoas, e dizer a elas que o Jiu-Jítsu não é somente um esporte, ele salva vidas”, ressaltou o pai dos gêmeos Jorge e Joaquim, de cinco anos.

Resultado Amazonas
No total, a Seleção Brasileira de ParaJiu-Jítsu subiu ao pódio quase em todas as categorias. Segundo o coordenador da delegação, Mario Edson Silva, mais de 90% das medalhas foram ao time canarinho. Entre elas, sete são dos amazonenses do ParaJiu-Jítsu.

Ouro – World Pro – PCDs (Pessoas com Deficiência/ ParaJiu-Jítsu)
Até 56kg - Alex Taveira (deficiência congênita) - Faixa Preta – Categoria e Absoluto – AMAZONAS
Até 77kg – Ender Rodrigo (deficiência) - Faixa Preta - Categoria
Até 85kg - Flavio Leonardo (amputado) - Faixa Roxa – Categoria e Absoluto - AMAZONAS
Até 110kg - Adriano Gomes (paralisia cerebral) - Faixa Preta- Categoria e Absoluto – AMAZONAS
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da Redação - Manaus/AM