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Acusado de ser agente da propina, ex-Globo criou modelo da emissora


Marcelo Campos Pinto foi um dos principais personagens dos bastidores do futebol brasileiro nas duas últimas décadas. Em 1999, o advogado criou e moldou dentro da TV Globo o setor responsável pela compra dos direitos de transmissão dos principais eventos esportivos no Brasil e no mundo. A divisão rendeu bilhões de reais de lucro para a emissora, com o sucesso comercial das transmissões.

Como executivo, se transformou no principal pagador do esporte brasileiro e passou a ser reverenciado por cartolas e homens de negócios. Em 2006, a emissora foi escolhida pela Fifa como a vencedora do leilão pelos direitos de transmissão para o Brasil das Copas do Mundo de 2010 e 2014, mesmo oferecendo US$ 100 milhões a menos que a Record. Para ter sucesso, Campos Pinto contou com a ajuda de Ricardo Teixeira, então presidente da CBF, que integrava o Comitê Executivo da Fifa, órgão responsável pela decisão.

O advogado foi demitido pela Globo em 2015, seis meses após a prisão de uma série de cartolas, incluindo o brasileiro José Maria Marin. Os dirigentes são acusados de receberem propina na venda de direitos de torneios no Brasil e no exterior.
Na ocasião, comunicado assinado por Roberto Irineu Marinho, presidente do Grupo Globo, relatava que o executivo se aposentaria. "Ao Marcelo, meu agradecimento pelo importante trabalho realizado durante mais de 20 anos de atuação no Grupo Globo", disse Marinho.

Nesta terça (14), a Globo foi acusada pelo empresário Alejandro Burzaco, dono da Torneos y Competencias, de pagar suborno aos cartolas. Em depoimento à Justiça americana, o argentino admitiu ter pago milhões de dólares em propina junto com a Globo e a mexicana Televisa para dirigentes do continente em troca dos direitos de transmissão de competições, como a Copa do Mundo de 2026 e 2030. Segundo o executivo, Campos Pinto participou de reuniões com Marin e Marco Polo Del Nero, atual presidente da CBF, e deu o aval para o pagamento da propina.

Ainda segundo Burzaco, que assinou acordo de cooperação com a Justiça americana, Del Nero receberia junto com Marin US$ 600 mil em propina a cada ano relativo a aos contratos de transmissão da Copa Libertadores e da Copa Sul-Americana. Os valores teriam aumentado para US$ 900 mil em 2013. O ex-executivo não se manifesta desde o depoimento. Em nota, a Globo "afirma veementemente que não pratica nem tolera pagamento de propina".

NOVOS PLANOS
Apesar de ter deixado o comando do braço esportivo da Globo, o advogado continua trabalhando no setor. Ele abriu uma empresa, a Sportsmedia, e circula o país negociando parcerias com cartolas. Seu projeto é aumentar a programação dos canais de TV dos clubes e ampliar a participação deles no ambiente digital, algo comum nos EUA.

Em agosto, ele foi uma das atrações de um seminário promovido pela FGV (Fundação Getúlio Vargas) e pela Fifa no Rio. Falou por mais de uma hora sobre o tema "esporte nas mídias digitais". Campos Pinto permanece próximo dos dirigentes da CBF. O ex-executivo da Globo é presença frequente na sede da confederação brasileira. Na FGV, ele foi apresentado como um profissional que participa "ativamente das discussões sobre calendários e formatos de competições".

Vinte e três dias antes de Marin ser preso na Suíça, em maio de 2015, Campos Pinto discursou em premiação dos melhores do Campeonato Paulista. Disse que o ex-presidente, hoje em prisão domiciliar nos EUA, inscreveu o nome na história do futebol brasileiro. O cartola tinha passado o cargo a Del Nero. "2015 vai entrar na história do futebol brasileiro como um grande ano. O ano em que há poucas semanas o presidente José Maria Marin passou o bastão para o presidente Marco Polo. Presidente Marin, em nome do grupo Globo, em meu nome, eu gostaria de agradecer todo o carinho, toda a atenção com a qual o senhor sempre nos brindou, sempre aberto a discutir os temas que interessam ao futebol brasileiro", afirmou Campos Pinto.

Na Globo, ele sempre teve a ajuda dos cartolas da CBF. Em 2011, com o apoio de Teixeira, acabou com o Clube dos 13, que reunia os principais times do Brasil e negociava em bloco os direitos de transmissão. Na época, a entidade tentou fazer uma licitação com todas as emissoras pelas edições seguintes do Brasileiro. Com a possibilidade de perder o torneio para a Record, Campos Pinto se antecipou e negociou diretamente com os clubes. Teve apoio de Andrés Sanchez, aliado de Teixeira, na época presidente do Corinthians, que foi um dos primeiros a fechar de forma isolada com a Globo.

Os outros times seguiram os passos da equipe paulista. A nova fórmula inviabilizou financeiramente o Clube dos 13, que acabou em seguida. Na Globo, Campos Pinto formatou comercialmente uma série de torneios. O Campeonato Brasileiro virou de pontos corridos em 2003 por pressão do executivo. Ele alegava que as constantes viradas de mesa atrapalhavam a comercialização do torneio. O advogado trabalhou na Globo por 21 anos. Mestre em Direito Comparado pela Universidade de Illinois, nos EUA, foi contratado como diretor jurídico em 1994. Após cinco anos, passou a comandar o braço esportivo, que liderou até a sua saída da empresa.

O sucesso comercial da sua carreira lhe garantiu uma vida abastada. Ele mora no Jardim Pernambuco, uma das regiões mais nobres do Rio. Localizado no Leblon, o condomínio de casas tem entre moradores herdeiros da família Marinho e Carlos Arthur Nuzman, ex-presidente do COB (Comitê Olímpico do Brasil), em prisão domiciliar. Nos últimos dias, Campos Pinto não é visto pelos seus vizinhos. Mesmo assim, ele está no Brasil.

O advogado Marcelo Campos Pinto não se pronuncia desde terça-feira (14), quando o empresário argentino Alejandro Burzaco, dono da Torneos y Competencias, admitiu ter pago milhões de dólares em propina junto com à Globo e à mexicana Televisa para cartolas do continente. Segundo delação do argentino, Campos Pinto deu seu aval em alguns negócios com pagamento de propina.
A reportagem telefonou e enviou mensagens para o cartola por quatro dias. No final da tarde de sexta-feira (17), a reportagem foi até a casa de Campos Pinto, na zona sul do Rio, para entrevistá-lo. Um funcionário do advogado disse que o ex-executivo da Globo agradecia o contato, mas não pretendia conceder entrevista. Na terça-feira, o Jornal Nacional, da Globo, informou que não conseguiu contato com o ex-executivo.

GLOBO
Em nota, a emissora com sede no Rio informou que Campos Pinto "saiu da Globo em 2015 por conta da reorganização do Esporte, que evoluiu para uma área integrada, passando a abranger da aquisição de direitos à produção de conteúdo". Ao ser questionado sobre o depoimento do empresário argentino, o Grupo Globo informou que "sobre isso, vale nosso posicionamento já divulgado". "O Grupo Globo afirma veementemente que não pratica nem tolera qualquer pagamento de propina. Esclarece que após mais de dois anos de investigação não é parte nos processos que correm na Justiça americana", afirmou a empresa.

"Em suas amplas investigações internas, apurou que jamais realizou pagamentos que não os previstos nos contratos. Por outro lado, o Grupo Globo se colocará plenamente à disposição das autoridades americanas para que tudo seja esclarecido. Para a Globo, isso é uma questão de honra", acrescentou.

"O Grupo Globo deseja esclarecer que Marcelo Campos Pinto, em apuração interna, assegurou que jamais negociou ou pagou propinas a quaisquer pessoas", conclui a nota da emissora. Tanto José Maria Marin quanto Marco Polo Del Nero negam ter recebido qualquer valor irregularmente.



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