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Hacker que combate fake news usa a própria avó como ferramenta


Quando começou a desenvolver um sistema para detectar desinformação nas redes sociais, o jornalista e programador norte-americano Cameron Hickey não sabia que uma das principais ferramentas para encontrar o que chama de "junk news" seria uma senhora de 86 anos que vive no interior dos Estados Unidos: a própria avó.

"Foi perturbador, não pelo fato de ela curtir essas páginas, mas pelo fato de haver tantas", afirma Hickey à reportagem. A aposentada Betty Manlove segue mais de 1.400 páginas no Facebook - boa parte delas é fonte de desinformação como a Cosmo Política e a Manchete Diária.

Três delas, como descobriram, foram criadas por agentes russos nas eleições americanas de 2016. E muitas ela nem sequer lembrava de ter curtido (provavelmente após ter clicado em algum anúncio).

Entender esse ecossistema de junk news e como a desinformação se espalha pelas redes é o objetivo do NewsTracker, ferramenta criada por Hickey e que deve ser replicada em outros países, inclusive no Brasil.

"É muito mais do que notícia falsa: inclui hiperpartidarismo, clickbait, plágio, informação enganosa, memes, sátiras." Uma visita aos sites curtidos pela avó do jornalista, que integram a base de dados do NewsTracker, ajuda a entender esse ecossistema.

Notas sobre a família real se mesclam a notícias urgentes, sobre temas do momento, mas baseadas em falsas premissas ou informações não confirmadas. Entre as chamadas: "Acontecendo agora: México em pânico" ou "Curta e compartilhe se você gosta da nossa primeira-dama".

Manlove é cristã e conservadora, eleitora de Donald Trump –o que não quer dizer que o universo das junk news se restrinja a esse público. Páginas de cunho liberal, que atacam o presidente republicano, também distribuem conteúdo falso e hiperpartidário. Uma das maiores é o Truth Examiner, seguido por 3,8 milhões de pessoas.

"Curta se você NUNCA vai apoiar Donald Trump!", diz a página de abertura, repleta de chamadas como "Quando os conservadores vão perceber que as ARMAS são o problema??" ou "Veja a professora que enganou Trump".

As táticas são as mesmas. As chamadas alimentam a raiva e incitam a divisão política. Muitos dos sites saem do ar depois de um tempo, criando novos domínios na sequência, para evitar que sejam detectados por algoritmos que bloqueiam conteúdo falso ou extremista.

São táticas que se replicam pelo mundo. Hickey aposta, por exemplo, que a estratégia dos sites americanos foi copiada por russos e macedônios que tentaram influenciar a eleição dos EUA. No topo da lista de junk news, o compartilhamento das páginas chega a ser maior que o do New York Times.Isso não quer dizer que os leitores aceitem o conteúdo de forma passiva ou ingênua.

A avó de Hickey, por exemplo, se demonstrou cética em relação ao que lê no Facebook – mas disse que não ia mudar seus princípios nem deixar de curtir as páginas."Ela nutre um grande ceticismo em relação à mídia tradicional. É muito mais provável que ela prefira menosprezar a relevância das junk news, ou ignorá-las, em vez de parar de segui-las", comenta Hickey.

A reportagem pediu para entrevistar Betty, mas ela declinou. Em entrevista a TV dos EUA, disse ter ficado aborrecida pela exposição a conteúdo russo, mas afirmou que continuará fiel aos seus princípios."Isso mostra que há uma questão maior e que envolve todos nós: a fidelidade ao que acreditamos", diz o jornalista.

Hickey afirma ainda que pretende expandir o NewsTracker para outros países. Um dos alvos é o Brasil, onde ele afirma haver um grande "buraco negro" de desinformação no WhatsApp, cujas informações são protegidas por criptografia.

Há, segundo ele, conversas em andamento para desenvolver um protótipo no país, em parceria com organizações jornalísticas. Com informações de Estelita Hass Carazzai, da Folhapress.


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