Terminais de ônibus recebem ação educativa na programação da campanha "Justiça pela Paz em Casa"

A equipe multidisciplinar do projeto "Maria Acolhe", do 1.º Juizado Especializado no Combate à Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, realizou na manhã desta quinta-feira (22) uma ação de abordagem educativa aos usuários do transporte coletivo, nos Terminais de Integração 4 (Jorge Teixeira) e 5 (São José), ambos localizados na zona Leste da cidade. A atividade fez parte da campanha “Justiça pela Paz em Casa”, que acontece até esta sexta-feira (23) e está na sua 14.ª edição.

A juíza Ana Lorena Gazzineo, que é titular do 1.º "Juizado Maria da Penha", frisa que, além da tentativa de acelerar o julgamento dos processos, a campanha reforça também outras ações, a maioria delas voltadas para conscientizar a população sobre o problema da violência doméstica que hoje não é só um problema da família, mas do Estado e da sociedade de maneira geral. "Por esse motivo, levar uma abordagem educativa para espaços como terminais de ônibus, por exemplo, acaba tendo um efeito muito positivo. Muitas vezes, as mulheres não sabem de seus direitos, não sabem onde procurar ajuda. Nesses momentos (das ações educativas) muitas delas passam a ter ciência do que fazer nesses casos. Pode até não ser de uma violência que ela, por ventura, esteja sofrendo, mas sabendo da situação de uma amiga, de uma conhecida. Elas acabam multiplicando a informação, a orientação, e isso é importante para ajudar a quebrar ciclos de violência”, destaca a magistrada.

Um dos motivos dos casos de violência virem à tona, aponta a juíza, é o esclarecimento da população. “Então, nós temos tentado fazer esse tipo de abordagem, essa 'panfletagem' nas ruas, além de outras providências no âmbito do atendimento prestado diretamente pelo Juizado, como medidas que a gente acha que são cabíveis para consicentizar a população. Nossa equipe multidisciplinar está de parabéns, porque em todas as campanhas temos procurado, cada vez mais, ampliar e melhorar esse serviço de abordagem da população. Entendo que esse é um dos motivos para que hoje ocorram mais denúncias e os casos de subnotificação tenham diminuído”, afirma a juíza Ana Lorena.

Ao encontro da sociedade

No ano passado, a equipe percorreu shoppings e terminais, tendo atingido mais de mil pessoas com a distribuição de panfletos, além de prestar orientações e esclarecimentos sobre a legislação que trata dos casos de violência contra a mulher. Neste ano, nesta manhã no contato direto com a população, a equipe do 1.° "Juizado Maria da Penha" encontrou as mais diversas opiniões sobre o assunto.

O coordenador operacional de um dos terminais, Eudes Moraes, acredita que a mulher precisa de proteção e é o “sexo frágil”. “Eu não conheço nenhum caso de violência contra a mulher. Eu mesmo não teria coragem de cometer uma violência contra nenhuma mullher. Nunca presenciei nem gostaria de presenciar algo desse tipo, mas, se acontecesse, com certeza eu denunciaria. A mulher não tem coragem de denunciar porque muitas vezes fica com medo, até da própria família se voltar contra ela. Mas se eu soubesse de algum caso de violência, eu denunciaria, sim, porque mulher é um sexo tão frágil!”, ressaltou o coordenador.

Já a pastora Maria Lira, vendedora ambulante em um dos terminais, acredita que os homens também merecem proteção. “Acho o máximo (esse tipo de ação), acho muito bom. Mas acho também que tem de ter a orientação para os homens, porque muitas mulheres são aproveitadoras dessa lei, têm a cabeça poluída. Sou pastora de uma igreja e vejo muito isso de mulheres se aproveitarem da Lei, usarem de falsidade contra o homem, até para afastar ele de casa e ficar com a casa para ela. Já presenciei isso em várias famílias e tenho filho homem. Como pastora, já vi pessoas chegarem chorando, pedindo ajuda por estar sendo acusado e não poder fazer nada. É importante, é necessária, mas essa Lei precisa ser mais observada, com triagem adequada e levar em frente somente os casos que realmente são comprovados que têm violência contra a mulher”, ressaltou a pastora.

A atividade de orientação levada de forma mais direta à sociedade, mostra sua eficiência em casos como o da vendedora ambulante M.A.R, que foi orientada pela equipe multidisciplinar durante a ação realizada em 2018 no mesmo terminal. Durante uma abordagem educativa, a história da ambulante foi revelada à equipe pelos trabalhadores do terminal, que sabiam que a mulher sofria violência. M.A.R está, atualmente, em tratamento neurológico devido à violência sofrida por parte do ex-companheiro durante cinco anos de um relacionamento abusivo. Mãe de três filhos, sendo os dois mais novos fruto dessa relação, ela conta que o ex-companheiro era usuário de drogas e que ela acreditava na mudança dele em razão de estarem constituindo uma família, por isso não denunciava. 

“Meu marido tentou me 'furar' várias vezes. Eu vivi com ele durante cinco anos e ele me batia somente na cabeça para não aparecer marca no meu corpo. Eu evitava falar e ficava esperando que desse certo (o relacionamento), mas eu estava dentro de um domínio de violência. Me livrei disso em agosto do ano passado”, conta ela, que deu continuidade ao relacionamento mesmo depois do companheiro atentar contra a filha dela mais velha. “Minha filha tem uma medida (protetiva) contra ele (o ex) porque tentou violentá-la e responde a um processo por isso. Na época, ela estava com 19 anos, hoje tem 21 e mora em outra cidade”, conta a ambulante.

O ex-companheiro também é acusado de agredir o filho menor do casal durante o periodo de visita, quando a criança foi levada por ele para passar o fim de semana. “Ele está respondendo por lesão corporal. Meu filho voltou com a cabeça machucada, e ele diz que foi acidental, mas meu filho diz que foi proposital e que foi o pai quem lhe bateu na cabeça. Entrei com processo na Justiça e espero que ele não me persiga mais”, afirma M.A.R.

Trabalhando os dois lados

A assistente social Celi Cristina Nunes Cavalcante, do 1.º "Juizado Maria da Penha", explica que a atuação do projeto “Maria Acolhe” atinge vários públicos, incluindo, também, os homens que figuram como parte dos processos, de forma a sensibilizá-los. “Nosso trabalho tem sido, constantemente, de entender com eles essa construção da masculinidade. De que maneira essa masculinidade hegemônica é tóxica e prejudicial, não somente para as mulheres, mas para eles próprios, que ficam presos dentro dessa caixa em que foram colocados. Eles também têm um sofrimento e não conseguem sair pela forma como foi construído esse processo em que foram ensinados, cultural e historicamente, e essa masculinidade acaba sendo muito machista”, explica a assistente social, que lembra da reação dos homens quando são convidados às palestras.

“Alguns chegam 'armados', pensam que serão julgados naquele momento, que já estão sendo condenados no momento em que são chamados para atendimento. Demonstramos que não, que aquele trabalho é de orientação, de nós tentarmos proporcionar a eles reflexões que, muitas vezes, eles não conseguiram encontrar em nenhum espaço e ali oportunizamos essa reflexão quanto à questão da violência, quanto a quem sofre com essa violência, que é a família inteira e, no final, eles acabam sendo mais receptivos”, explica a assistente social.


Fotos: Lucas Queiroz


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