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quarta-feira, 22 de julho de 2020

Cirurgião dentista devolve sorriso a jovem que teve rosto dilacerado por mordida de cachorro


Aconteceu na terça-feira, dia 9 de junho. Tiago, 14, o caçula de Michael e Bianca Costa, dormiu na rede onde gostava de ficar, no primeiro piso da casa de dois andares no bairro do Educandos, na Zona Sul de Manaus. É onde vive sua tia, o marido dela e um cachorro, o labrador Klaus, de três anos. Como é característico da raça, o animal sempre fora dócil e brincalhão. Tiago adorava brincar e passear com ele. Mas nesse dia as coisas foram diferentes.

Depois de passar a noite na rede, às 8h da manhã Tiago acordou. Sonolento, foi pondo o corpo para fora da rede, mas não suspeitava que o cão estava logo abaixo dele, dormindo. Num gesto involuntário, acabou pisando no animal. "Atordoado", como ele descreve, de sono e de susto, o jovem caiu no chão e ficou ainda mais vulnerável ao ataque do cachorro, que agiu por instinto.

A mordida pegou em cheio a parte direita da boca, lacerando ambos os lábios - superior e inferior. No ataque, o cachorro chegou a arrancar um pedaço dos lábios do garoto. “Foi horrível. Eu fiquei com muito medo. Achei que ia morrer”, lembra o jovem, que foi levado às pressas para o Serviço de Pronto Atendimento da Colônia Oliveira Machado, próximo dali. Mas não pode permanecer muito tempo. A unidade estava focada no atendimento a pacientes de Covid19 e ele poderia ser contaminado.

Transferido para o Hospital da Criança da Zona Leste, o Joãozinho, ele finalmente recebeu o primeiro atendimento. Foram 38 pontos de sutura e horas de tensão e espera. A cirurgia para reposicionar parcialmente os tecidos da boca durou quatro horas. Mas a luta tinha apenas começado.

“Depois da cirurgia, a doutora veio e me falou que ele tinha perdido sensibilidade nos lábios e que ia precisar de cirurgia plástica, ou poderia ficar com sequelas no rosto e no olho direito, porque foi puxado o tecido do rosto. Eu fiquei desesperada”, disse a mãe, que, ao lado do marido, teve pouco tempo para processar tudo o que estava acontecendo. "Eu achei que meu filho ia ficar com o sorriso torto, que nunca mais ia querer sair na rua. Ele só tem 14 anos”, diz ela.

A luta

Tiago é um bom filho, vizinho prestativo e, assim como o seu pai, um reconhecido “pé-de-valsa”: ele dança na quadrilha fundada por Michael, a “Funk na Roça”, e já ganhou até concurso de dança entre os brincantes do grupo. Filho carinhoso, é o xodó da casa e querido também na comunidade, que sentiu junto com a família o baque do incidente.

Michael e a esposa iniciaram uma verdadeira saga em busca de ajuda, já que uma segunda cirurgia, que evitaria sequelas mais graves, deveria ser feita em um prazo de dez dias, mas àquela altura, em função da pandemia, os médicos lhe disseram que os hospitais públicos não conseguiriam realizá-la.

Foi então que o casal decidiu lançar mão das conexões que a família tem no bairro e na cidade. “Eu publiquei num grupo de amigos de infância no Whatsapp, fiz um post no Facebook, que teve mais de 40 mil compartilhamentos. Realizamos uma feijoada e até uma live na igreja. Aí começaram a chegar doações de amigos e até de pessoas que eu nem conhecia”, contou Michael.

Em busca de um cirurgião particular, a família chegou a ouvir algumas propostas, mas não tinha como levantar, em tão pouco tempo, o dinheiro exigido para a operação: algo em torno de 18 mil reais. Houve também quem tentasse se aproveitar da situação. “Teve gente que veio aqui dizendo tal político ia ajudar, se eu fechasse com ele. Eu recusei. Disse que eu ia conseguir. Se fosse um cara que honrasse o poder que tem, nem mandava dizer isso pra mim”, disse ele.

A família foi indicada por um amigo ao cirurgião dentista Mike Ezequias, que há cerca de 7 anos abre seu consultório no bairro do Coroado para pacientes que não teriam condições de custear um tratamento ou cirurgia.

Com tudo acertado, Tiago foi então levado ao consultório, onde realizou uma outra cirurgia para reposicionar melhor os tecidos da face, dando início de imediato a diversas etapas simultâneas de tratamento.

”O cuidado era com a profundidade, e se tinha acertado algum nervo sensitivo ou motor, já que ele poderia ficar com problemas de fala, com dificuldade de movimentar a boca ou com parestesia (dormência permanente)”, explicou dr. Mike.

Em cerca de um mês de sessões de laser, pomadas, antibióticos e fisioterapia para conseguir movimentar e sentir a própria boca, o sorriso de Tiago voltou. Quem o vê, não faz ideia da gravidade do que ocorreu há pouco mais de quatro semanas. “Deus mandou o melhor médico do mundo pra mim”, diz Tiago.

O pai, Michael, também agradece. “Sou eternamente grato ao doutor Mike. Ele fez jus ao juramento que ele fez como profissional da saúde. Tenho certeza que é um homem de bom coração. Só pessoas de bem fazem o que ele fez”, diz ele, que foi dispensado de qualquer pagamento e usou o dinheiro doado - algo em torno de 4 mil reais - para comprar remédios e dar prosseguimento ao tratamento em casa.

Razão pra ser solidário

O que leva uma pessoa a ajudar alguém que nunca viu na vida? A essa pergunta, o cirurgião dentista Mike Ezequias, 45, poderia responder apenas contando a sua história. Uma história que prova o poder transformador da solidariedade e da gratidão em nossas vidas.

Nascido em São Luís, no Maranhão, Mike cresceu em Boa Vista-RR. Chegou a Manaus aos 16 anos, no início da década de 90, em busca de melhores oportunidades de vida e estudo. Acabou desembarcando no bairro do Coroado, Zona Leste de Manaus.

Em busca de um trabalho, conseguiu serviço na Paróquia do Divino Espírito Santo: quebrar uma enorme caixa d’água de 4m x 4m. “Passei o dia todo marretando para ganhar dez reais”, lembra ele.

Foi lá que Mike conheceu um funcionário da paróquia, seu Hernando, que simpatizou com o rapaz trabalhador. “Ele ouviu minha história, e me levou pra casa dele”, diz Mike, que passou a morar na casa de Hernaldo, se tornando muito próximo da família.

Com o suporte, moradia e afeto, ele teve condições estudar e trabalhar pelo que queria. “Formei na primeira turma de técnicos de prótese em Manaus, em 97. Mas já sabia fazer tudo aquilo”, diz ele, que aprendeu a ofício com o pai desde a infância.

Hoje, cirurgião dentista com mestrado e especializações nas áreas de cirurgia bucomaxilofacial e harmonização orofacial, ele fala da importância do gesto para a formação de uma sua personalidade altruísta.

“Se alguém teve a sensibilidade de olhar pra mim: um adolescente que morava na rua, colocar no seio da sua família, o mínimo que posso fazer para retribuir é ajudar o meu próximo. Isso me norteou pra me formar. A solidariedade de terceiros desconhecidos no passado permitiu que eu chegasse onde eu cheguei”, diz ele, que também realiza trabalho voluntário com crianças especiais na Associação Lar de Vitórias, no Japiim. “O que me move é ver as pessoas felizes”, diz ele.


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